Perdoem-me os adoradores do Sol. Mas este calor emburrece, tudo ao nosso redor são só peitos, bundas e braços. E dependendo por onde se anda a população é só celulite e estrias... urrrgh!
Vou rezar pra passar rapidinho... E pra que chegue logo o friozinho tão esperado por mim e tantos outros adoradores de um todo mais clássico e confortável ...
Ai ai ... Verão Paulistano...
Encontro com a consciência...
Era tarde ainda, e de frente para a janela reluzente de Sol amarelado, encontrei a consciência sentada em uma das minhas poltronas de vime. Repousava o braço direito sobre uma de minhas almofadas e na outra apoiava uma taça de meus melhores vinhos. Imóvel não se assustou comigo e nem com o tintilhar das chaves na porta à suas costas.Assustado e inerte, nada pude fazer de instantâneo.
Olhava aquela figura de cabelos louros encaracolados, ofuscados pela contraposição da luz de um Sol tardio de domingo. E de onde estava só pude perceber que ela fitava o nada que havia deitado, bem ali, a sua frente. Fazia tudo como se eu não existisse, ou como se ainda não houvesse notado um respingo de minha presença. Avancei dois passos fortes no intuito de acordá-la do transe em que se propusera. Mas de nada adiantou. Pensei em dizer-lhe algum jargão de saudação; mesmo que espantoso fosse qualquer coisa que eu balbuciasse naquele pequeno instante de minha existência. E por fim, não disse nada. Calado gritei indignado o nome dela. Era ela!Mais uma vez, sentada ali como se eu não a houvesse incomodado ou mesmo pudesse.
Com alguns segundos passados, e com corajosas mãos ao ar, tentei tocá-la os ombros. E antes de concluir o pequeno gesto, recolhi os dedos nas palmas e os introduzi nos bolsos de mais uma de minhas calças gastas. Afinal o que fazer quando a consciência lhe faz uma visita? Tentei refletir, mas nada me ocorria, senão o silêncio sepulcral de uma tarde ensolarada no vilarejo solitário que é minha vida. Permaneci silenciado pelo momento, pelo Sol e por ela. E para o que na minha cabeça, durariam horas, surpreso, ouvi um grande e preguiçoso suspiro. Me recobri de uma coragem fingida e esperei ali, sem nenhum movimento brusco, que me dissese algo.
Mas ela permaneceu sentada e apenas contorceu o pescoço dedicando a mim um terço de olhar duro e infame. Pereceram anos enquanto fixamente ela me via. Procurava em mim, o tanto dela que havia desaparecido depois de nossa última discussão. Sem dizer nada, levantou, repousou sobre o mogno a taça que lhe fazia companhia, ajeitou o vestido para baixo dos joelhos e caminhou lentamente em direção a porta, sem olhar para trás.
E ali naquele mesmo um quarto de chão, e no mesmo instante permaneci parado, sem acreditar que sairia assim, mais uma vez. Foi quando subitamente ela interrompeu os compassados passos, como se soubesse que eu estava a sua espera. Suspirou mais uma vez, girou a maçaneta e foi-se. Desde então tem sido assim meus silenciosos encontros com a consciência. Sumariamente sinto sua falta, mas aprendi a lidar com tudo mais, sem um pouco de sua presença.
Domingo por Clarice Lispector...
"Agora é dia feito e de repente de novo domingo em erupção inopinada. Domingo é dia de ecos – quentes, secos, e em toda a parte zumbidos de abelhas e vespas, gritos de pássaros e o longínquo das marteladas compassadas – de onde vêm os ecos de domingo? Eu que detesto domingo por ser oco. Eu, que quero a coisa mais primeira porque é fonte de geração – eu que ambiciono beber água na nascente da fonte – eu que sou tudo isso, devo por sina e trágico destino só conhecer e experimentar os ecos de mim, porque não capto o mim propriamente dito. Estou numa expectativa estupefaciente, trêmula, maravilha, de costas para o mundo, e em alguma parte foge o inocente esquilo. Plantas, plantas. Fico dormitando no calor estivo do domingo que tem moscas voando em torno do açucareiro. Alarde colorido, o do domingo, e esplendidez madura. E tudo isso pintei há algum tempo e em outro domingo. E eis aquela tela virgem, agora coberta de cores maduras. Moscas azuis cintilam diante de minha janela aberta para o ar da rua entorpecida. O dia parece a pele esticada e lisa de uma fruta que numa pequena catástrofe os dentes rompem, o seu caldo escorre. Tenho medo do domingo maldito que me liquidifica."
Do livro turbilhão Água Viva.